A nossa vida no campo é cheia de surpresas.
Não bastava a ausência forçada, devido ao rapto dos alienígenas, agora tenho, de novo, problemas à perna por causa da Jaquina, a galinha.
Com a nossa ausência parece que se lhe insuflou uma veia ditadora que desconhecia, tomando-se de razões, dominou a restante bicharada. Até aqui nada de mais, não fosse a sua prepotência. Mas a coisa lá se arranjou da melhor maneira. Logo que regressámos, e depois de muita discussão ela lá se
axandrou e voltou ao galinheiro, parecendo tomar a atitude amistosa de sempre.
Mas foi um engano.
Como sabem os mais assíduos leitores, o capataz não é flor que se cheire, homem do campo, embrutecido pela vida laboriosa, sem qualquer respeito pelos bichos. As galinhas são das principais vítimas, pois de quando em vez lá salta uma para a panela, a pretexto de se fazer uma canjinha ou uma cabidela para o senhorio. Isto faz com que as bichezas vivam no terror de quando será a sua vez.
A Jaquina, farta daquela discriminação lançou mãos à obra. Reuniu a galinhagem e traçou um plano. A revolta ia começar.

Óbvio que eu só soube disto aquando da execução do plano, apesar de ter a obrigação de ter suspeitado que algo se passava no galinheiro, pois o silêncio sepulcral que de lá emergia durante a noite não poderia agoirar nada de bom.
Pois chegamos então ao belo dia em que acordo para ir para o pasto e me deparo com o espectáculo. Todas as galinhas, em fila pirilau, de óculos de aviador, em frente à porta principal da casa, tendo como mestre de obras quem? A Jaquina, claro está.
Aproximei-me, um pouco a medo, confesso, pois sei que daquela cabecinha só sai disparate, e perguntei-lhe que se passava.
- Acabou a época de terror, vamos hoje provar que galinha apetrechada jamais será apanelada!! – respondeu-me a maluca da Jaquina.
- Queres explicar-me que se passa, ou vou ter de vos enxotar aos coices?
- Bem, o plano é o seguinte, e repara que isto é uma estratégia pensada e repensada, formei uma série de
galikazes, que vão atacar a porta, em forma de protesto…
- Formaste o quê?? – perguntei, apesar de intuir que não ia gostar da resposta.
-
Galikazes,
galikazes. Galinha altamente treinada, com as mais sofisticadas técnicas de combate, dispostas a morrer pela nossa causa…
- Hei, hei, xôô – interrompi – Qual causa? Qual combate, mulher?
- Oras, a causa “O Galinhéu não é petisco do gadaréu!”
- Chiça, tu estás cada vez pior. Então em que consiste o plano, Jaquina?
- Simples, como podes observar, o meu pelotão está equipado com aqueles óculos, vês? – explicou-me ela, apontando efusivamente para as outras galinhas. Quando olhei com atenção tive de conter, a custo, uma gargalhada. Estavam ridículas. – Depois, como se percebe, estão estrategicamente colocadas em fila, em frente à porta, depois tomam balanço e arremessam-se para a porta, morrendo e deixando bem claro a nossa mensagem. A Galinhagem é que escolhe a hora da passagem!
Sorri e afastei-me dizendo:
- Ai é? Então boa sorte. – E fui à minha vida.
Quando voltei, ao fim da tarde, constatei o que imaginara.
Lá estavam as galinhas todas, não bem no mesmo estado em que as deixara. Estavam umas de ligadura na cabeça, de óculos estilhaçados, outras cheias de enxaquecas e as mais variadíssimas dores corporais, mas a generalidade nem estava muito maltratada.
Fiquei também a saber que a coisa começou a correr mal para a Jaquina, quando, as galinhas que já iam na quinta rodada, perceberam que a Jaquina continuava a inventar desculpas para não se chegar à frente.
O que prova que as galinhas nem são assim tão estúpidas.
Está no galinheiro, a recuperar.
Nada de grave, ela prometeu voltar com um plano ainda mais genial.
Ainda dizem que a vida no campo é entediante.