| Para quem costuma passar na Lisboa profunda - e aqui falamos da sua rede de transportes central - será certamente fácil reconhecer a figura que hoje vou evocar para ilustrar este desabafo. Anda no Metro, tem uma bengala - pois é cego - e tem uma caixa pendurada ao pescoço: anda a pedir. Ao longo dos tempos sofisticou a sua actividade. Lembro-me de ter começado a tamborilar com a vara enquanto entoava a cantilena da pedincha, e mais recentemente, mas estamos a falar de meses, transformou-a numa espécie de rap e o seu slogan petitório reza qualquer coisa como isto: "...e podem crer que eu vou continuar a agradecer aos que tenham a possibilidade e a disponibilidade de me auxiliar..." (não é ipsis verbis mas é muito aproximado, eu depois confirmo). E gabo-lhe o ritmo.
Bom. Se a coisa fosse de rir, que não é, pois tem no seu centro uma questão social grave e sintomática, eu iria ridicularizar as técnicas de marketing deste senhor, pois tenho assistido a cenas em que, chegado ao final da carruagem, e pelo que depreendi, duma jornada monetariamente infrutífera, desata a desancar quem quer que esteja naquele lugar com bujardas do calibre de (sic) "já percebi que nesta carruagem é tudo racistas...!" e patati-patatá, duma forma agressiva, e agora até lamento não ser capaz de reproduzir integralmente as suas deixas. Por que não há dúvida que às tantas apetece perguntar-lhe se aquela atitude lhe traz mais lucros. Ou empurrá-lo nas escadas mais altas. Enfim, o que é facto é que aquele senhor anda a perder a réstia de sanidade que aqueles que estão a ler isto que escrevo ainda mantêm, e não parece haver solução para o salvar. Isto é triste e não deveria de estar de fora do nosso mundo mental quotidiano.
Já não sei quem é que disse que a segurança social de um país define o seu grau civilizacional, mas apetece-me concordar. Isto é um caso de segurança social, de Educação, e de Civismo. Post chato, este.
plantado por Badalo @ 22:26 |
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