Há dias, numa das minhas passeatas ocasionais pela cidade,

entrei no café das arcadas e lá me demorei um pouco com umas loiras. "Café com gás" como dizia muito cheio de si o empregado de mesa, obviamente apreciando o seu senso de humor. "Vai lá, vai!", repetia, com evidente satisfação (e fazia um movimento inenarrável com o cotovelo).
E encontrava-me eu quase distraído com esta figura quando, na mesa atrás de mim, um conjunto de sons chamou a minha atenção. Ouvira claramente falar em "badalo" e apurei o ouvido, furtivamente, para aferir se teria ouvido "Badalo". Palavras soltas como "post", "comentários" e "aquilo às vezes fica lento" contextualizaram-me indubitavelmente na blogosfera.
Voltei-me discretamente e reconheci: José Saramago e Manoel de Oliveira, com a mesa pejada de meias-de-leite e meias-torradas (!) trocavam sublimes impressões.
Não é vergonha admiti-lo: senti-me impressionado por estar ali, a inalar o mesmo lote de ar que tão distintos cidadãos, e, pondo completamente de parte o decoro, apurei ainda mais os sentidos para captar a conversa.
- Não, sabes, Manoel... aquilo acaba por ser bastante simples. Escrevo com o fluir da pena e por puro gosto, ou, diria antes, por destino traçado; mas se ele não comenta no meu blogue também não vou comentar no dele (refería-se a Luís Sepúlveda ou a O Meu Pipi, não percebi bem). E nem vale a pena dizer-me que tem uma média diária de visitas superior à minha... (tosse) Eu sou um nobelizado, que diabos!!
Manoel de Oliveira, acenava ligeiramente com a cabeça, assentindo, ou, pelo menos, foi o que me pareceu pelo canto do olho, a menos que estivesse com algum tipo de tontura ou a afastar uma eventual mosca.
- Pois, compreende-se - disse, final e vagarosamente.
- E o teu, continua? - perguntou-lhe Saramago.
- Hã? Ah, o meu blogue. Sim, não, quero dizer, decidi acabar com ele... embora... fosse o blogue ideal... para quem apenas dispõe de banda estreita... Não, agora decidi-me a homenagear colegas meus.
Saramago arregalou os olhos.
- É - continuou Manoel - tenho um quase pronto para arrancar, dedicado ao João César Monteiro.
- Ah sim?! - inquiriu Saramago quase denotando interesse.
- É. Entra-se no blogue e vê-se um ecrã todo preto.
- E depois?
- É isso mesmo. Um ecrã preto - disse, sorrindo.
- Soberbo!
plantado por Badalo @ 11:55 |